O mundo cinza de Sebald

segunda-feira, 15 de junho de 2009

 

Na obra do alemão W. G. Sebald, as descrições são tão importantes para dar corpo às narrativas que, às vezes, o grau de minúcia a que elas descem chega a ser atordoante. Exatamente por isso, apontei em um texto a “clareza cristalina” de sua literatura (para ler, clique aqui), o que, entretanto, não significa dizer que seja fácil. Para exemplificar essa aparente contradição, basta atentar para a importância das cores nessas descrições. Não são cores quaisquer: na maioria das vezes, são cores combinadas, elas mesmas descritivas de tons com mínimas diferenças. Nessas diferenciações, parece-se dizer que o mundo ali retratado é bem mais complexo que uma cor genérica poderia sugerir.


Para começar, podemos falar apenas de uma delas: o cinza. Nela, Sebald é pródigo. Alguns são fáceis de identificar. Outros, nem tanto. Em Os Emigrantes (Record, 240 págs., R$ 35), por exemplo, ele escreve:


“(...) atrás de uma parede de nuvens que cobria todo o horizonte a leste subia a fatia pálida da lua, e em seu brilho agora jaziam debaixo de nós as antes invisíveis colinas, topos e cadeias, parecendo um mar cinza-gelo em amplas ondulações.”


Até aqui, nenhuma dificuldade. Cinza-gelo seria algo assim:





Já em Austerlitz (Companhia das Letras, 288 págs., R$ 44), se lê:


“Agora eu já não conseguia tirar os olhos do rio que fluía pesado no crepúsculo, das barcaças que, aparentemente imóveis, afundavam na água até as bordas, das árvores e dos arbustos na outra margem, da hachura fina dos vinhedos, das linhas transversais mais nítidas dos muros de arrimo, das rochas cinza-ardósia e dos desfiladeiros que conduziam lateralmente a um reino, assim pensava, pré-histórico e inexplorado.”


Assim o cinza-ardósia:





Da mesma maneira, nas narrativas, ele percorre outras tonalidades.  Como:


Cinza-rato:





Cinza-pombo:





Cinza-chumbo:





Tudo fácil. Mas a coisa se complica num trecho de Vertigem (Companhia das Letras, 200 págs., R$ 41):


“Era na verdade, como resultou de um exame mais detido, um velho manequim de alfaiate vestido com bombachas cinza-lúcio e um casaco também cinza-lúcio, cujos punhos, gola e debrum devem ter sido um dia verde-musgo, e os botões amarelo-ouro.”


Como diabos seria esse cinza-lúcio? Não achei essa cor em lugar algum no Google, mas (em meio a um pequeno surto obsessivo) cheguei a uma hipótese que me pareceu plausível. O “lúcio” poderia se referir ao peixe Northern pike, também conhecido como Esox lucius, de tom cinza-esverdeado. Não tenho certeza, mas seria algo assim:






Mas nem tudo em Sebald é cinza, como bem se pode ver, no trecho acima, pelas cores dos punhos e dos botões do casaco — também cores combinadas. Em breve volto ao assunto,   mostrando cores menos plúmbeas.

 
 

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